Coisa de Mãe

4 de agosto de 2008

por Christianne Alcantara

Coisa de filha

Tenho estado muito envolvida com um projeto que não é meu. É do meu pai. Um projeto que não aprovo, mas que apóio (aparentemente contraditório?)… Então, tudo o mais tem ficado em segundo plano. Eu também. Tenho esse defeito de colocar os problemas dos outros como prioridades em relação aos meus próprios problemas. Um defeito grave. No caso específico, não pretendo corrigir. É definitivamente coisa de filha. Com meu pai, sempre foi assim, reciprocamente: não precisávamos concordar um com o outro para respeitar e apoiar a escolha… Uma vez feita, a escolha sempre parecia ter sido nossa, fruto de um consenso. E simplesmente nos apoiávamos, sem necessariamente concordarmos com o mérito da opção. Continua sendo assim: somos amigos e podemos contar um com o outro, incondicionalmente. Gostaria de conseguir estabelecer uma relação com meu filho que tivesse essa profundidade, esse respeito e, principalmente, todo esse amor. Porque é mesmo necessário muito amor para aceitar as diferenças e desenvolver a difícil arte da convivência…

1 de agosto de 2008

por Christianne Alcantara

Amamentar: um gesto de amor

Bernadete Dantas é pediatra e especialista na área de aleitamento materno

O aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida do bebê é essencial para a saúde das crianças e das mães. Essa frase tem sido repetida constantemente. A Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS) divulgada no mês passado mostrou que 43% das crianças são amamentadas na primeira hora de vida no Brasil, 99% são amamentadas no primeiro dia de vida e 40% das crianças com menos de seis meses recebem exclusivamente o leite materno. Na Semana Mundial da Amamentação, que começa hoje e vai até o dia 7, a pediatra Bernadete Dantas, especialista na área de aleitamento materno, concedeu uma entrevista ao Coisa de mãe e falou sobre os benefícios da amamentação e as dificuldades que a mães encontram para oferecer o leite materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida. 

Coisa de mãe – Na 17a. Semana Mundial da Amamentação, o Brasil tem muito a comemorar?
Bernadete Dantas – Houve um certo progresso. As pessoas estão se conscientizando mais. O Ministério da Saúde inicia hoje uma campanha nacional de aleitamento materno, com a Semana Mundial da Amamentação. No próximo dia 9, quando ocorre a segunda etapa da vacinação contra paralisia infantil, o Ministério realiza uma pesquisa com as mães para avaliarmos qual é a real situação do País no que diz respeito ao aleitamento materno… A última pesquisa sobre amamentação havia sido realizada em 1999. Mas ainda há muito a ser feito. É preciso sensibilizar não apenas a mãe, mas as famílias também, em torno da importância da amamentação. A questão também dos profissionais que lidam com essas mulheres… Precisam estar mais bem preparados para orientá-las. Então, temos algo a comemorar, mas muito a melhorar ainda.

Coisa de mãe – Qual é a situação de Pernambuco?
Bernadete Dantas – O percentual de aleitamento aumentou. Muitos hospitais foram credenciados como amigos da criança, por iniciativa do Ministério, em Pernambuco, nos últimos anos, o que significa que estamos voltados para a questão. Começou com o Instituto Materno Infantil de Pernambuco (IMIP). Foi o primeiro no Brasil, inclusive. Agora, como no caso do País, o nosso Estado também precisa crescer nessa área. Temos muito trabalho a ser feito, realmente.

Coisa de mãe – Há alguma relação entre a classe social e a disponibilidade para a amamentação?
Bernadete Dantas – Não, não vejo essa relação. A gente até pensa… Porque na classe mais pobre seria uma sobrevida. Elas teriam que amamentar. Porque uma mãe de uma classe social mais alta tem condições de comprar o leite, embora não esteja amamentando bem seu filho, mas tem uma saída. No caso da mais pobre, na verdade, ainda falta informação. Então, no lugar do leite maternizado, ela dá um leite integral diluído… É aí que a gente tem que trabalhar. Por isso, não vejo essa relação. O que falta é informação e apoio. Se a mãe foi informada desde a gestação, se ela tem apoio, se ela dispõe de um serviço ao qual ela chegue e seja atendida adequadamente, por pessoas que segurem mesmo na mão, que ajudem, a mãe enfrenta, amamenta bem, independentemente da classe social. O apoio da família é outra coisa fundamental. As avós são figuras prioritárias no aleitamento porque passam a experiência que tiveram. Quando não foi boa, é um desastre, desestimulante, mas quando a avó amamentou bem passa a ser uma aliada. As mães, principalmente as de primeira viagem, contam muito com suas próprias mães, nesse momento. Então, a preparação da família para lidar com o aleitamento é muito importante.

Coisa de mãe – A questão do emprego, a licença-maternidade, é muito importante para que a mãe possa amamentar com tranqüilidade. Esse também não é outro aspecto fundamental na luta pelo crescimento do índice de aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses? Já existe uma lei estadual para as funcionárias públicas.
Bernadete Dantas – É verdade. Nossa luta agora é que esse direito seja garantido a todas as mulheres que trabalham fora. Eu acho que a mulher, tendo mais disponibilidade de tempo, mais apoio, até a questão que a gente sempre orienta sobre o estoque do leite… Tudo fica mais fácil. Qualquer coisa que seja feita no sentido de estimular o aleitamento materno vale ouro. Outra iniciativa que poderia ser implementada: as creches para que as mães possam amamentar no próprio trabalho, no caso daquelas que não dispõem dos seis meses, por exemplo. Isso seria uma maravilha porque nem todas têm condição de fazer o estoque de leite. O que acontece é que as mães às vezes não conseguem fazer o estoque e começam a introduzir frutas, verduras antes dos seis meses, quando não introduz outro leite antes do sexto mês.

Coisa de mãe – Vamos lembrar as mães sobre os benefícios do aleitamento materno? Ainda há uma certa insegurança sobre se o leite materno é suficiente para oferecer todos os nutrientes de que o bebê necessita.
Bernadete Dantas – Há uma questão cultural. A gente ouve muito: “Dê um chazinho”. Às vezes, o sorinho glicosado, que a gente tem abolido. Não tem sentido dar água, chá, porque 87,9% do leite humano é de água! É água suficiente. E o leite materno é fonte completa de nutrientes: açúcar, proteína, gordura. A natureza é maravilhosa. Estudos recentes mostram, por exemplo, que em lugares quentes aumenta a quantidade de água e, em lugares frios, aumenta o percentual de gordura do leite humano. Ou seja, o leite materno vai suprir a necessidade do bebê. Não há o menor risco de o nenê sentir falta de água ou desidratar. Agora, se forem introduzidos outros alimentos, suco de fruta, verdura, outro leite, aí tem que dar água porque modifica todo o funcionamento do organismo do bebê: os rins vão trabalhar mais e tem que dar água. Agora, só com leite materno, tranqüilidade. Não precisa dar mais nada!

Coisa de mãe – As mães devem oferecer o peito sempre que as crianças solicitam?
Bernadete Dantas – Sempre. É a livre-demanda. Sempre que o bebê solicitar, atender. Agora, principalmente as mães de primeira viagem, precisam ter paciência porque o começo é bem puxado. Não tem hora certa. Eles solicitam muito. Aquela estória de que o bebê vai mamar de três em três horas não existe, na prática. Eles mamam às vezes de hora em hora, 40 minutos. Não é só para comer que eles solicitam o peito. Eles querem aconchego, estar junto da mãe, carinho, chupeta… Tudo isso faz parte. Sempre digo para as mães terem paciência um mês, um mês e meio. A partir daí, eles começam a regular. Eles. Não é a gente que faz o horário, não. É quando eles começam: três em três horas, quatro em quatro horas, automaticamente.

Coisa de mãe – Quais são as orientações para que a mãe possa se preparar para a amamentação durante a gestação?
Bernadete Dantas – Desde a gestação, a gente orienta expor mamilos ao sol porque ele ativa a vitamina D que fortalece o tecido para prevenir as fissuras, rachaduras. A outra orientação é que a mãe use sutiã. De preferência, 24 horas. Ela deve também furar dois orifícios na altura do mamilo para que o mamilo atrite numa roupa. Esse atrito oferece mais resistência para futuramente, durante a sucção, não ferir, não rachar. A gente pede também que evite creme, pomada, hidratante porque afina a pele e nós queremos o contrário: a pele mais resistente. Pode usar ao redor da mama, mas não em mamilo e auréola.

Coisa de mãe – Até quando a mãe deve amamentar o bebê?
Bernadete Dantas – Exclusivo até seis meses e depois a mãe deve continuar amamentando, oferecendo outros alimentos até dois anos.

Coisa de mãe – Qual será a programação da Semana Mundial da Amamentação em Pernambuco?
Bernadete Dantas – O evento comum será coordenado pela Secretaria de Saúde do Estado. Todos os hospitais e serviços que trabalham com aleitamento, inclusive hospitais privados, vão participar do evento que será realizado hoje, na Estação Central do Metrô, das 8h30 às 12h30. Vamos ter apresentação de orquestra, distribuição de panfletos, teatrinho, para não deixar passar essa data e estar informando as pessoas sobre a importância do aleitamento materno. No dia 8, a coordenadora do Banco de Leite do Imip, Vilneide Braga, vai fazer uma palestra intitulada “A primeira prevenção é o aleitamento materno”, às 7h, no Auditório Alice Figueira, no Imip. A palestra é aberta ao público. Depois, teremos homenagens a enfermeiras do hospital que se sensibilizaram com a causa da amamentação e se destacaram.

Serviço:

AMA – Aleitamento Materno

Fone: 3423.0202

31 de julho de 2008

por Christianne Alcantara

Semana Mundial da Amamentação destaca benefícios do aleitamento materno

Cartaz da campanha de amamentação

De amanhã até o próximo dia 7, cerca de 120 países promovem a 17a. Semana Mundial da Amamentação. Este ano, a frase da campanha remete ao fato de a mulher ter necessidade de apoio durante o período do aleitamento materno. “Nada mais natural que amamentar. Nada mais importante que apoiar. Amamentação: participe e apóie a mulher” é o mote da campanha publicitária que visa conscientizar –  quem está perto da mãe – sobre a importância do apoio dos familiares e amigos para que a criança possa ter, como alimentação exclusiva, o leite materno nos primeiros seis meses de vida. A Semana Mundial da Amamentação foi criada em 1992 pela Aliança Mundial para Ação em Aleitamento Materno (World Alliance for Breastfeeding Action-WABA) e tem o objetivo de estimular a amamentação, informando sobre os benefícios do aleitamento para  crianças e mães.

28 de julho de 2008

por Christianne Alcantara

Aleitamento materno

Lembro-me do primeiro momento em que meu filho solicitou o peito. Eu não sabia o que ele tinha. Acabara de chegar ao apartamento do hospital e lá vinha a enfermeira, com a criança chorando: “Mãe, seu bebê está com fome”. Fiquei sem ação. Eu havia me preparado tanto para aquele momento. Procurara uma médica especialista na área de aleitamento materno, Bernadete Dantas, estava com todas as informações disponíveis, mas a prática eu ainda precisava dominar. A teoria, já tinha na ponta da língua. Peguei João Marcelo nos braços, ainda desajeitada. Lembrava-me de que a orientação era de que a barriga dele precisava estar em contato com a minha, era importante que ele abocanhasse o peito e não que pegasse a ponta do bico da mama e eu sabia ainda que, no início, a quantidade de leite seria pequena. Fiz tudo como manda o figurino e João Marcelo só fazia chorar. “No começo, é assim mesmo, mãe”, falou a enfermeira. Com o tempo, tudo foi ficando mais fácil (não assim tão rapidamente quanto a leitura desta postagem pode sugerir) e eu me recordo com saudades dos momentos em que amamentava meu filho. Tudo isso voltou à minha memória porque o próximo dia 1º de agosto é o Dia Mundial da Amamentação. Não tenho visto campanhas, não tenho encontrado divulgação do dia ou de uma semana de programação para discutir questões pertinentes ao aleitamento materno. É lamentável. Os ganhos são infindáveis. Meu filho raramente adoece. É uma criança saudável, apesar da alergia à proteína do leite de vaca. Com certeza, o aleitamento materno, ao qual me dediquei durante um ano, embora trabalhasse dois horários, tem um papel fundamental na saúde dele. A Organização Mundial de Saúde e a Unicef têm dado orientações no sentido de estimular a amamentação: 

1) iniciar a amamentação nas primeiras horas de vida da criança;

2) amamentação exclusiva, ou seja, o lactante recebe apenas leite materno, sem nenhum outro alimento ou líquido, nem mesmo água;

3) que a amamentação aconteça sob demanda, ou seja, todas as vezes que a criança quiser, dia e noite;

4) não usar mamadeiras nem chupetas.

São as dicas técnicas. As minhas dicas de mãe são outras:

1) tenha paciência;

2) não se desespere no início;

3) persista;

4) ame profundamente.

27 de julho de 2008

por Christianne Alcantara

Mãe possível

Hoje, encontrei um texto que escrevi para João Marcelo em 04 de junho de 2006, às vésperas do final da minha licença-maternidade. Cheio de promessas:

” Não serei uma mãe ausente. Estarei junto de você a qualquer necessidade sua. Serei próxima, sem ser invasiva; compreensiva, sem ser condescendente; amiga, sem ser permissiva; carinhosa, sem ser sufocante; amorosa, sem ser possessiva”

A culpa faz com que a gente prometa a perfeição, impossível de ser alcançada. Lembro-me de que a volta ao trabalho foi muito difícil. Mas, ao mesmo tempo, foi muito importante para mim e para minha relação com meu filho. Claro que a culpa por não estar perto dele me inquietava. Por outro lado, passei a valorizar cada minuto que tínhamos juntos e vivê-lo intensamente. Sentia saudades, mas percebia a relevância de me sentir mais do que mãe. Sei que parece paradoxal. Acho que é o que a maioria das mulheres que trabalham fora de casa sentem: Um misto de culpa e alívio ao voltarem ao trabalho. E um misto de felicidade e alívio ao voltarem para casa, quando o dia termina. Definitivamente, não posso falar por outras mulheres, mas o meu sentimento é de que eu preciso da minha profissão para me sentir uma mulher mais realizada, mais feliz. Quando eu volto para casa, sinto que consigo ser uma mãe melhor do que seria caso não trabalhasse… É apenas uma percepção que só se aplica a mim mesma. Não estou defendendo que para ser uma boa mãe as mulheres precisem trabalhar fora. Conheço mães maravilhosas que dedicam todo seu tempo aos filhos. Falo de mim: Se eu passasse o dia inteiro dedicada ao meu filho, ao meu marido, à minha casa, à minha família, seria uma mulher estressada e, inevitavelmente, frustrada. De qualquer forma, não deixo de sentir uma pontinha de culpa por isso. No fundo, acho que gostaria de me dedicar inteiramente ao meu filho, mas tenho certeza de que isso não faria de mim uma mãe melhor ou uma mulher mais interessante ou um ser humano especial, como tantas mães que conheço. Sendo assim, optei por dar o que tenho e não o que gostaria de ter. Afastei-me, assim, do ideal de perfeição. Não serei nunca uma mãe perfeita, até porque ela não existe. Tento ser apenas uma mãe possível.

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