Coisa de Mãe

Amamentar: um gesto de amor

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Bernadete Dantas é pediatra e especialista na área de aleitamento materno

O aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida do bebê é essencial para a saúde das crianças e das mães. Essa frase tem sido repetida constantemente. A Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS) divulgada no mês passado mostrou que 43% das crianças são amamentadas na primeira hora de vida no Brasil, 99% são amamentadas no primeiro dia de vida e 40% das crianças com menos de seis meses recebem exclusivamente o leite materno. Na Semana Mundial da Amamentação, que começa hoje e vai até o dia 7, a pediatra Bernadete Dantas, especialista na área de aleitamento materno, concedeu uma entrevista ao Coisa de mãe e falou sobre os benefícios da amamentação e as dificuldades que a mães encontram para oferecer o leite materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida. 

Coisa de mãe – Na 17a. Semana Mundial da Amamentação, o Brasil tem muito a comemorar?
Bernadete Dantas – Houve um certo progresso. As pessoas estão se conscientizando mais. O Ministério da Saúde inicia hoje uma campanha nacional de aleitamento materno, com a Semana Mundial da Amamentação. No próximo dia 9, quando ocorre a segunda etapa da vacinação contra paralisia infantil, o Ministério realiza uma pesquisa com as mães para avaliarmos qual é a real situação do País no que diz respeito ao aleitamento materno… A última pesquisa sobre amamentação havia sido realizada em 1999. Mas ainda há muito a ser feito. É preciso sensibilizar não apenas a mãe, mas as famílias também, em torno da importância da amamentação. A questão também dos profissionais que lidam com essas mulheres… Precisam estar mais bem preparados para orientá-las. Então, temos algo a comemorar, mas muito a melhorar ainda.

Coisa de mãe – Qual é a situação de Pernambuco?
Bernadete Dantas – O percentual de aleitamento aumentou. Muitos hospitais foram credenciados como amigos da criança, por iniciativa do Ministério, em Pernambuco, nos últimos anos, o que significa que estamos voltados para a questão. Começou com o Instituto Materno Infantil de Pernambuco (IMIP). Foi o primeiro no Brasil, inclusive. Agora, como no caso do País, o nosso Estado também precisa crescer nessa área. Temos muito trabalho a ser feito, realmente.

Coisa de mãe – Há alguma relação entre a classe social e a disponibilidade para a amamentação?
Bernadete Dantas – Não, não vejo essa relação. A gente até pensa… Porque na classe mais pobre seria uma sobrevida. Elas teriam que amamentar. Porque uma mãe de uma classe social mais alta tem condições de comprar o leite, embora não esteja amamentando bem seu filho, mas tem uma saída. No caso da mais pobre, na verdade, ainda falta informação. Então, no lugar do leite maternizado, ela dá um leite integral diluído… É aí que a gente tem que trabalhar. Por isso, não vejo essa relação. O que falta é informação e apoio. Se a mãe foi informada desde a gestação, se ela tem apoio, se ela dispõe de um serviço ao qual ela chegue e seja atendida adequadamente, por pessoas que segurem mesmo na mão, que ajudem, a mãe enfrenta, amamenta bem, independentemente da classe social. O apoio da família é outra coisa fundamental. As avós são figuras prioritárias no aleitamento porque passam a experiência que tiveram. Quando não foi boa, é um desastre, desestimulante, mas quando a avó amamentou bem passa a ser uma aliada. As mães, principalmente as de primeira viagem, contam muito com suas próprias mães, nesse momento. Então, a preparação da família para lidar com o aleitamento é muito importante.

Coisa de mãe – A questão do emprego, a licença-maternidade, é muito importante para que a mãe possa amamentar com tranqüilidade. Esse também não é outro aspecto fundamental na luta pelo crescimento do índice de aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses? Já existe uma lei estadual para as funcionárias públicas.
Bernadete Dantas – É verdade. Nossa luta agora é que esse direito seja garantido a todas as mulheres que trabalham fora. Eu acho que a mulher, tendo mais disponibilidade de tempo, mais apoio, até a questão que a gente sempre orienta sobre o estoque do leite… Tudo fica mais fácil. Qualquer coisa que seja feita no sentido de estimular o aleitamento materno vale ouro. Outra iniciativa que poderia ser implementada: as creches para que as mães possam amamentar no próprio trabalho, no caso daquelas que não dispõem dos seis meses, por exemplo. Isso seria uma maravilha porque nem todas têm condição de fazer o estoque de leite. O que acontece é que as mães às vezes não conseguem fazer o estoque e começam a introduzir frutas, verduras antes dos seis meses, quando não introduz outro leite antes do sexto mês.

Coisa de mãe – Vamos lembrar as mães sobre os benefícios do aleitamento materno? Ainda há uma certa insegurança sobre se o leite materno é suficiente para oferecer todos os nutrientes de que o bebê necessita.
Bernadete Dantas – Há uma questão cultural. A gente ouve muito: “Dê um chazinho”. Às vezes, o sorinho glicosado, que a gente tem abolido. Não tem sentido dar água, chá, porque 87,9% do leite humano é de água! É água suficiente. E o leite materno é fonte completa de nutrientes: açúcar, proteína, gordura. A natureza é maravilhosa. Estudos recentes mostram, por exemplo, que em lugares quentes aumenta a quantidade de água e, em lugares frios, aumenta o percentual de gordura do leite humano. Ou seja, o leite materno vai suprir a necessidade do bebê. Não há o menor risco de o nenê sentir falta de água ou desidratar. Agora, se forem introduzidos outros alimentos, suco de fruta, verdura, outro leite, aí tem que dar água porque modifica todo o funcionamento do organismo do bebê: os rins vão trabalhar mais e tem que dar água. Agora, só com leite materno, tranqüilidade. Não precisa dar mais nada!

Coisa de mãe – As mães devem oferecer o peito sempre que as crianças solicitam?
Bernadete Dantas – Sempre. É a livre-demanda. Sempre que o bebê solicitar, atender. Agora, principalmente as mães de primeira viagem, precisam ter paciência porque o começo é bem puxado. Não tem hora certa. Eles solicitam muito. Aquela estória de que o bebê vai mamar de três em três horas não existe, na prática. Eles mamam às vezes de hora em hora, 40 minutos. Não é só para comer que eles solicitam o peito. Eles querem aconchego, estar junto da mãe, carinho, chupeta… Tudo isso faz parte. Sempre digo para as mães terem paciência um mês, um mês e meio. A partir daí, eles começam a regular. Eles. Não é a gente que faz o horário, não. É quando eles começam: três em três horas, quatro em quatro horas, automaticamente.

Coisa de mãe – Quais são as orientações para que a mãe possa se preparar para a amamentação durante a gestação?
Bernadete Dantas – Desde a gestação, a gente orienta expor mamilos ao sol porque ele ativa a vitamina D que fortalece o tecido para prevenir as fissuras, rachaduras. A outra orientação é que a mãe use sutiã. De preferência, 24 horas. Ela deve também furar dois orifícios na altura do mamilo para que o mamilo atrite numa roupa. Esse atrito oferece mais resistência para futuramente, durante a sucção, não ferir, não rachar. A gente pede também que evite creme, pomada, hidratante porque afina a pele e nós queremos o contrário: a pele mais resistente. Pode usar ao redor da mama, mas não em mamilo e auréola.

Coisa de mãe – Até quando a mãe deve amamentar o bebê?
Bernadete Dantas – Exclusivo até seis meses e depois a mãe deve continuar amamentando, oferecendo outros alimentos até dois anos.

Coisa de mãe – Qual será a programação da Semana Mundial da Amamentação em Pernambuco?
Bernadete Dantas – O evento comum será coordenado pela Secretaria de Saúde do Estado. Todos os hospitais e serviços que trabalham com aleitamento, inclusive hospitais privados, vão participar do evento que será realizado hoje, na Estação Central do Metrô, das 8h30 às 12h30. Vamos ter apresentação de orquestra, distribuição de panfletos, teatrinho, para não deixar passar essa data e estar informando as pessoas sobre a importância do aleitamento materno. No dia 8, a coordenadora do Banco de Leite do Imip, Vilneide Braga, vai fazer uma palestra intitulada “A primeira prevenção é o aleitamento materno”, às 7h, no Auditório Alice Figueira, no Imip. A palestra é aberta ao público. Depois, teremos homenagens a enfermeiras do hospital que se sensibilizaram com a causa da amamentação e se destacaram.

Serviço:

AMA – Aleitamento Materno

Fone: 3423.0202

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6 Comentários

  1. Amei a entrevista. É uma grande contribuição para as mamães e as futuras mamães, que precisam saber sobre a importância da amamentação.

  2. Parabéns pela matéria! Aproveito para deixar meu depoimento que amamentei meu primeiro filho até os 2 anos e meio, apesar de trabalhar fora, como a maioria das mulheres. No início tive um abscesso na mama Direita que teve que ser drenado. Doía que as minhas lágrimas caiam quando ele estava mamando no seio afetado, mas depois da drenagem e seguindo as orientações dadas pelos médicos, esse início, digamos, traumático, foi superado e ele mamou até 2 anos e meio. E o meu segundo filho, está com um ano e vai pelo mesmo caminho…
    Abraços!

  3. Christianne, estou sempre dando uma olhada por aquil. Parabéns pelo blog! Muito informativo e bastante útil!
    Infelizmente nem todas sabem da importância do aleitamento…
    Boa sorte!
    Beijos,

    Roberta

  4. Sou mãe-monitora em aleitamento materno. Aprendi muito como salvar vidas através deste alimento. Parabéns à Dra. Bernadete, à Dra. Vilneide e a todas as mães-monitoras pelo trabalho que vem sendo realizado nas comunidades. Parabéns também às mães que abraçam esta ideia, pois amamentar é amar.

  5. Parabéns por esse valioso trabalho de incentivo a amamentação!
    Minha monografia tem como tema verificar o perfil do aleitamento materno numa comunidade, e essa reflexão me ajudou muito.

  6. Boa tarde,

    Tenho uma bebê de 8 meses, e estou grávida de 6 semanas, minha bebê ainda mama. Tanto eu quanto ela , gostamos muito desse ato. Gostaria de saber se posso continuar amentando durante a gestaão, já que esta sendo estressante para ambas a desmamada.

    obrigada.

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