Coisa de Mãe

15 de junho de 2008

por Christianne Alcantara

Com medo da dor

Há três meses, estamos às voltas com o medo da dor… A dor que João Marcelo vai sentir ao se submeter ao sétimo exame de sangue (pela minhas contas, é o sétimo) durante seus dois anos e quase seis meses de vida. Parece estranho “medo da dor”. A princípio me pareceu também. Mas é isso mesmo… Temos medo do que essa dor pode representar, ou melhor, do que já representa. Não podemos passar perto de algum laboratório ou hospital que ele já aponta o lugar e relata: “Chorei muito aqui, mamãe…” Ele reconhece os lugares… Quando vamos à pediatra, como consulta de rotina, é um estresse. Ele odeia a palavra “médico”… Pra tomar as duas gotinhas da campanha de vacinação contra a poliomielite (ou pólio) foi outro estresse… Ele disse que as duas gotinhas doeram muiiiiiiito! Vou contextualizar. Acho que ainda não falei nesse assunto. João Marcelo é alérgico à proteína do leite de vaca. Ele não pode ouvir nem o “muuuu” da vaquinha, presente no universo lúdico da maioria das crianças… Devido à alergia, ele costuma ir a pediatra, alergologista e gastropediatra com mais freqüência que as demais crianças (imagino…) Houve também alguns acidentes em que ele teve contato com leite de vaca e precisou ir ao hospital. Preste atenção: contato, não necessariamente ingestão. Sentiu o drama? A alergia dele é daquelas… Então, como eu ia dizendo, estamos às voltas com o medo da dor que ele, com certeza, sentirá. Então, este final de semana, resolvi refletir sobre isso e cheguei à seguinte conclusão: podemos até adiá-la, mas não evitá-la. João Marcelo, até para ficar melhor, terá que passar por essa dor. Ela é realmente inevitável. Ponto final. Como outras dores que ele sentirá e que nós, mãe e pai, contemplaremos impotentes. Há uma frase de Nietzche: “O que não pode matar-me, torna-me forte”. Deve ser um consolo. Mas agora me ocorreu: acho que o medo que sentimos – mãe e pai – não é da dor de João Marcelo. É da nossa própria, ao vê-lo indefeso, gritando de medo, de dor e de nervosismo… Talvez todo esse adiamento tenha sido para evitar nossa própria dor… Bom, não poderemos mais postergar: João Marcelo fará esse exame amanhã.

10 de junho de 2008

por Christianne Alcantara

Mães, filhas e uma viagem de metrô

Sábado, 9h30. Saí pela Avenida Paulista rumo à Estação da Consolação. Como boa turista, queria conhecer o Museu de Língua Portuguesa, na Estação da Luz. Logo na fila para comprar o bilhete, encontrei a avó, a mãe, a filha e o filho. De repente, ouvi quando a filha disparou: “Você tá ficando muito chata, mamãe!” Tinha uns 14 anos, no máximo. A mãe arregalou os olhos, mas ficou paralizada. Não balbuciou uma palavra sequer. A menina, louca para assumir sua rebeldia típica da adolescência, falou com tal veemência que eu me choquei também. Inevitavelmente, fui mobilizada pela empatia e imaginei João Marcelo daqui a alguns anos dizendo a mesma frase. Fiquei comovida. Mesmo agora, contando, fico emocionada. Talvez o texto não traduza a força com que a filha pronunciou tais palavras aparentemente tolas, vindas de uma adolescente. Entretanto, na forma, a garota foi impiedosa. Lembrei-me de mim, quando adolescente. Lembrei-me de situações em que fui impiedosa com minha mãe. Talvez por isso tenha sentido tão intensamente as palavras. Daí por diante, não consegui parar de ouvir. Não me condenem: além da empatia, da curiosidade natural do ser humano, eu precisava de material para o blog… A avó, mãe da mãe, compôs o quadro belíssimamente. Foi em defesa da sua filha, ou seja, da mãe. Quem poderia condená-la? Afinal não é isso que as mães fazem: correm em defesa dos filhos (as)? “Sua boca é uma peixeira, fulana! Corta, dilacera…” Disparou com a mesma veemência que a garota. O silêncio da mãe, preenchido pelas palavras da avó, deu-me um certo conforto. A mãe continuou silenciosa e como aquele silêncio era eloqüente… Entramos no metrô, íamos na mesma direção. A menina respondeu também com o silêncio. Eu queria falar, claro! Dizer que ela um dia seria mãe e entenderia o que nós estávamos sentindo – eu, a mãe e a avó. Sempre me disseram isso quando eu era uma adolescente, mas só vim entender o verdadeiro sentido dessas palavras depois que tive João Marcelo, embora ainda não as tenha ouvido. Só de imaginar em um dia chegar a ouvi-las, já compreendo. A avó não parou ali. Ao longo da viagem, encostou-se junto à garota, em pé, e foi falando: “Fulana, você afasta as pessoas. Você quer ficar só? É isso que você quer? Ninguém quer estar perto de uma pessoa agressiva assim…” A menina, calada. Só ouvia, mas já dava para perceber a vergonha, escondida pela cabeça baixa. A mãe estava com os olhos marejados, mas não derramou a lágrima que insistia em nebular sua visão. Estava firme, apoiada no filho mais novo. O filho, de uns sete anos, era só carinhos, abraçado com a mãe, ciente de que ela precisava do seu apoio naquele momento. Ouvira tudo e perguntara a avó, com inocência: “O que é peixeira?” A avó explicara, didática. Tive vontade de perguntar: “A senhora é do Nordeste?” Reprimi meus impulsos. Peixeira é uma das 2.500 palavras e expressões que o escritor Fred Navarro classificou como nordestina, em uma pesquisa interessante que se transformou no livro Assim falava Lampião. O facão é curto e afiado, utilizado para cortar peixe. A avó explicou com a propriedade de quem entendia do que falava… E falava sem sotaque. Quer dizer, com o meu sotaque… Devia ser uma das tantas nordestinas moradoras de São Paulo… A menina estava cabisbaixa. A mãe, profundamente triste. De vez em quando, olhava para menina, quando esta se mostrava distraída. Eu não conseguia parar de observar sua reação. O menino voltava a abraçá-la, como que a defendê-la da peixeira da irmã… A avó parou o sermão e a menina sentou-se afastada. Foi quando anunciaram: Estação São Bento. A mãe perguntou: “É aqui, mãe?” A avó respondeu, distraída: “São Bento? É…” Reuniram-se a avó, a mãe e o filho. Faltava a menina. De onde eu estava, podia vê-la… A mãe perguntou: “Cadê fulana?” A avó localizou a menina e chamou-a pelo nome. A menina veio, ficou atrás dos três… Tive vontade de não ir mais para o Museu e descer em São Bento, sair seguindo a família pelas ruas de São Paulo. Não fiz isso… Preferi imaginar o desfecho: A filha fitaria a mãe intensamente e pediria desculpas. Então, finalmente, a lágrima correria livremente pelo rosto jovem da mãe…

9 de junho de 2008

por Christianne Alcantara

A pausa

“A vida precisa de pausas”. A frase de Carlos Drummond de Andrade é poética, mas eu vou parafraseá-lo: “Pais precisam de pausas”. Precisam de pausas para não fazer nada, para ficar junto, para ficar separado. Uma pausa, qualquer que seja ela. Crianças, vamos fazer uma pausa? É importante para a mãe (que por acaso também é uma mulher), para o pai (que por acaso também é um homem, ser humano de carne e osso), para o casal, nem se fala! Agora, para as crianças, acho que essa pausa é fundamental!!! Não, não é desculpa de mãe cheia de culpa… Enfim, não é Coisa de mãe achar que é bom para as crianças que os pais se ausentem… Claro que não! Mãe sempre acha que o melhor para os filhos é que ela esteja colada neles, meio galinha e pintinhos… Mas sabe que não é? Vamos lá, dê uma pausa. Páre de girar a cabeça de um lado para o outro em tom de desaprovação. Agora leia o argumento. Obrigada, depois pode discordar à vontade. A pausa, um final de semana acompanhada ou sozinha, por exemplo, só traz coisas boas: primeiro, a saudade. Você sente, as crianças sentem. Cadê mamãe? Quando ela chega? A ausência nos ajuda a valorizar a presença, em geral. O ser humano é um pouco assim mesmo… Inclusive as crianças. A sua disponibilidade total muitas vezes não é levada em conta. Por outro lado, você também valoriza: dá um trabalho, mas é tão bom ter filhos… Segundo, a liberdade. Vocês podem se assustar com minha franqueza, mas não vou recuar: A gente perde muito da nossa liberdade depois que temos filhos. Claro. Dizer diferente seria tapar o sol com a peneira. É ótimo, mas renunciamos a algumas coisas, inclusive a muito da nossa liberdade. Terceiro, o contraditório. Mães, já ouviram a seguinte frase: “Ele (ela) estava bem até agora, mãe, mas, você chegou, ele (ela) começou a chorar – ou a se irritar, ou a ser mal educado (a) etc? Pois é, ainda temos que ouvir dessas… Então, chegamos à conclusão de que as crianças ficam bem quando não estamos presentes. Ou seja, elas também precisam de pausas (se as suas crianças já são adolescentes, vão precisar ainda mais)! Bom, essa conversa toda não é para justificar as viagens que fiz recentemente. É só pra lembrar que não precisamos estabelecer uma relação simbiótica e dependente com nossos filhos para amá-los. Pelo contrário: amá-los significa deixá-los livres e nos permitir essa liberdade também. O amor não diminui com a ausência esporádica. Pelo contrário, aumenta! Muito! Deixá-los livres, confiados a pessoas da família, por exemplo, pode ser um exercício de muito amor. Até porque não é fácil viajar e deixá-los. Com certeza, esse gesto de sair de cena pode representar bastante para a auto-estima de uma criança que começa a ter mais autonomia. E autonomia é algo que eles (elas) têm que descobrir e desenvolver desde cedo, para crescerem seguros (as), certos (as) de que são amados (as) profundamente. Pais, dêem uma pausa…

2 de junho de 2008

por Christianne Alcantara

Curtas

Segunda: dia de amenidades. João Marcelo ao se despedir hoje da professora Rosa: “Tchau, minha flor!”. Ao entrar no carro com o pai, depois da escola: “Cadê minha mãe?”. O pai respondeu: “Está trabalhando” Ele: “Vou ligar pra ela e dizer pra ela não trabalhar e ir pra minha casa”. À noite, na hora de dormir, dirigindo-se ao pai: “Quero dormir com minha mãe, com tu e com mim” Ainda na hora de dormir (eita hora longa…): “Mamãe, tô triste. O lobo mau tomou meu mingau” Respondi: “Vou mandar fazer mais mingau…” Ele: “O lobo mau é mim, mamãe” Eita mãe besta, meu Deus!

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