Coisa de Mãe

8 de janeiro de 2009

por Christianne Alcantara

O pedido

João Marcelo recentemente me fez um pedido bastante preciso: “Mamãe, eu quero um irmão e uma irmã”. Surpresa. Completou: “Pra mim brincar”. Sempre achei que o número 3 seria um bom número, mas adoro ditados populares e um deles diz que “um é pouco, dois é bom e três é demais”. Sendo assim, já tinha me decidido: Mais uma gravidez e liquido a fatura. Vez por outra pensava também em como seria bom ter gêmeos… Uma barriga e dois (duas) filhos (as) ou um filho e uma filha, como encomendou o primogênito… De qualquer forma, apesar do pedido, confesso que não me decidi. Sequer conversei com o pai a respeito. A verdade é que a gravidez não é um período confortável nem para quem teve uma gestação tranqüila como a minha, sem intercorrências… Confesso que os nove meses, apesar de mágicos, foram, algumas vezes, desconfortáveis e difíceis. Digo sempre que teria muiiiiiiitos filhos se eu pudesse pular o primeiro ano imprescindível à maternidade – aquele que corresponde à gravidez e aos três primeiros meses de adaptação com o novo rebento… Realmente, acho que não dá para ser romântica e dizer que o “estado interessante” é sempre lindo e maravilhoso. Não é. Há dias de muito desconforto e cansaço. Por outro lado, todo mundo pensa que a criança vai nascer e pronto. Mas não é mesmo. Recuperar-se do parto, aprender a amamentar, identificar os choros, driblar as cólicas são aprendizagens que não acontecem necessariamente nessa ordem. Na verdade, a gente vai aprendendo tudo ao mesmo tempo. De repente, parece que a gente já nasceu sabendo… Acho que é nessa hora que a gente se dá conta: Sou mãe. Pois é, ponderando tudo isso, acho que vou precisar pensar ainda um pouco mais sobre o pedido do primogênito…

2 de janeiro de 2009

por Christianne Alcantara

5° desejo para 2009

Descobri meu 5° desejo para 2009: Mais tempo para mim. É Coisa de mãe esse negócio de sentir culpa sempre que fica longe do (a) filho (a). Agora mesmo, pai e filho saíram para um programa de meninos e eu não sei o que fazer. Vim escrever, claro. Eu sonho com essas saídas, peço para o pai fazer esses programas e quando eles acontecem fico sem chão. Meio culpada por estar longe dele, meio alegre por estar livre. Livre pra quê mesmo? Aí, o que parecia ter sentido perde todo o sentido… E fico eu aqui, meio sem rumo. Acho que vou reformular meu 5° desejo: Em 2009, quero aprender a aproveitar mais o meu tempo livre… Enquanto não aprendo, só me resta confessar: Que saudade!!!!!!!!!!

31 de dezembro de 2008

por Christianne Alcantara

4° desejo para 2009

Já que “todas as falhas humanas provêm da impaciência”, como diria Franz Kafka – autor que me deixou realmente impaciente na minha adolescência -, revelo o meu 4° desejo para 2009 por meio do conterrâneo Lenine.

30 de dezembro de 2008

por Christianne Alcantara

3° desejo para 2009

Relaxar. Em 2009, mais massagem relaxante, menos aperreio, mais salão de beleza, menos peso, mais gargalhadas, menos lágrimas, mais livros, menos circulares a serem lidas, mais beijo, menos briga, mais encontros, menos desencontros (essa foi mais que óbvia – o próprio óbvio ululante!), mais criatividade, menos obviedade (só para não perder a deixa)… Mais tudo de bom, menos tudo de ruim de 2008 (foi tão pouca coisa que eu não posso nem reclamar – já estou me sentindo culpada…)! Menos culpa, muito menos culpa!!! Relax total! Ah, mais bagunça, menos arrumação (minha mãe diria: “E é possível?”), mais Coisa de mãe, menos dias sem postar (tá pessoal, é o meu desejo…)!!!!!!!!!!!!!

29 de dezembro de 2008

por Christianne Alcantara

A visita

A casa branca, de paredes impecavelmente limpas, parecia um lar como outro qualquer. Chegamos um pouco tímidos, eu e João Marcelo. Logo na entrada, encontramos meninos e meninas brincando numa área ao ar livre. A maioria, na faixa etária de meu filho. Os brinquedos estavam espalhados pelo chão do terraço e as crianças se deliciavam com eles. Trazíamos mais dois sacos de carros, bichos de pelúcia, livros. Um pouco ansiosa, pensei que João Marcelo fosse questionar: “Mamãe, você não disse que as crianças não tinham brinquedos?” Mas ele já estava brincando com a bola de um dos meninos e não fez esse questionamento mesquinho que só os adultos são capazes de prever. Mostrou-me um brinquedo e disse que era igual ao seu. Apontou para um bebê que dormia tranqüilamente em um carrinho ao lado da  mãe que, como nós, vinha visitá-lo. Esperamos pela responsável, mas não muito. Quando ela chegou, João Marcelo já havia distribuído os presentes com um desprendimento que, confesso, surpreendeu-me, considerando o sofrimento do dia anterior. Ela se apresentou e nos convidou para conhecer o Lar do Nenen (www.lardonenen.com.br). Àquela altura, eu já tinha mil perguntas, mas não as fiz. Deixei que a nossa anfitriã fosse nos mostrando o ambiente e falando um pouco do trabalho. Falou que atualmente são 31 crianças, 40 voluntárias e uma equipe reduzida de funcionárias. Enquanto isso, intercalava com as apresentações: “Esta é a área administrativa”, “Esta é a cozinha”… Comentou: “Este ano tivemos muita doação. Muita mesmo. Entretanto, quando chega o mês de janeiro, essas doações caem. Por isso, fazemos estoque e controle do que foi doado”. De repente, João Marcelo grita: “Olha, mamãe, meu leite!” Havia reconhecido a lata de leite de soja que faz parte da sua rotina diária. Um rapaz anotava os itens doados e reunidos numa área da casa. Fazendo o controle mencionado. A anfitriã explicou que duas crianças fazem uso do leite de soja. João Marcelo é alérgico à proteína do leite de vaca e toma leite de soja. É um leite caro para uma família de trabalhadores como a nossa. Ao mês, gastamos pouco mais de R$ 500,00 só na compra do leite. Entre esse raciocínio e a euforia de João Marcelo, expliquei: “Outras crianças também têm alergia ao leite de vaca e bebem o mesmo leite que você”. Ele ficou calado, parecia refletir que, enfim, não era tão diferente assim… Ou será que pensava que aquelas crianças não eram tão diferentes dele? Não sei, provavelmente estava apenas pensando em descobrir outras coisas ao longo da nossa visita. Com certeza, quem fez essas reflexões fui eu mesma. Chegamos ao berçário e encontramos umas sete crianças com um mês ou um pouco mais. Confesso que sequer pude contar. Controlei o impulso de sair correndo da casa que parecia mesmo um lar, mas que ao mesmo tempo representava o abandono e a vulnerabilidade de meninos e meninas pernambucanas. Uma pequena amostra de uma sociedade egoísta que torna inocentes em vítimas do descaso (só mesmo um clichê para traduzir o que senti). João Marcelo se despediu das crianças. Despedi-me da anfitriã, assinei o livro de visitas. Saí em transe. Depois, um choque de realidade: Fui com meu filho ao clube para que andasse na bicicleta que ganhara de Papai Noel. A imagem das crianças no berçário, entretanto, não me saía da cabeça. Percebi que sentia uma solidão enorme, bem parecida com aquela a que somos expostos quando nos arrancam do útero. E aí a conclusão: Se temos algo em comum, é essa inevitável solidão. Ela mesma, a solidão, esse “sentimento” que revela o quanto somos e estamos sós. Frutos de um certo abandono, seja ele total ou não…

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