Coisa de Mãe

A visita

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A casa branca, de paredes impecavelmente limpas, parecia um lar como outro qualquer. Chegamos um pouco tímidos, eu e João Marcelo. Logo na entrada, encontramos meninos e meninas brincando numa área ao ar livre. A maioria, na faixa etária de meu filho. Os brinquedos estavam espalhados pelo chão do terraço e as crianças se deliciavam com eles. Trazíamos mais dois sacos de carros, bichos de pelúcia, livros. Um pouco ansiosa, pensei que João Marcelo fosse questionar: “Mamãe, você não disse que as crianças não tinham brinquedos?” Mas ele já estava brincando com a bola de um dos meninos e não fez esse questionamento mesquinho que só os adultos são capazes de prever. Mostrou-me um brinquedo e disse que era igual ao seu. Apontou para um bebê que dormia tranqüilamente em um carrinho ao lado da  mãe que, como nós, vinha visitá-lo. Esperamos pela responsável, mas não muito. Quando ela chegou, João Marcelo já havia distribuído os presentes com um desprendimento que, confesso, surpreendeu-me, considerando o sofrimento do dia anterior. Ela se apresentou e nos convidou para conhecer o Lar do Nenen (www.lardonenen.com.br). Àquela altura, eu já tinha mil perguntas, mas não as fiz. Deixei que a nossa anfitriã fosse nos mostrando o ambiente e falando um pouco do trabalho. Falou que atualmente são 31 crianças, 40 voluntárias e uma equipe reduzida de funcionárias. Enquanto isso, intercalava com as apresentações: “Esta é a área administrativa”, “Esta é a cozinha”… Comentou: “Este ano tivemos muita doação. Muita mesmo. Entretanto, quando chega o mês de janeiro, essas doações caem. Por isso, fazemos estoque e controle do que foi doado”. De repente, João Marcelo grita: “Olha, mamãe, meu leite!” Havia reconhecido a lata de leite de soja que faz parte da sua rotina diária. Um rapaz anotava os itens doados e reunidos numa área da casa. Fazendo o controle mencionado. A anfitriã explicou que duas crianças fazem uso do leite de soja. João Marcelo é alérgico à proteína do leite de vaca e toma leite de soja. É um leite caro para uma família de trabalhadores como a nossa. Ao mês, gastamos pouco mais de R$ 500,00 só na compra do leite. Entre esse raciocínio e a euforia de João Marcelo, expliquei: “Outras crianças também têm alergia ao leite de vaca e bebem o mesmo leite que você”. Ele ficou calado, parecia refletir que, enfim, não era tão diferente assim… Ou será que pensava que aquelas crianças não eram tão diferentes dele? Não sei, provavelmente estava apenas pensando em descobrir outras coisas ao longo da nossa visita. Com certeza, quem fez essas reflexões fui eu mesma. Chegamos ao berçário e encontramos umas sete crianças com um mês ou um pouco mais. Confesso que sequer pude contar. Controlei o impulso de sair correndo da casa que parecia mesmo um lar, mas que ao mesmo tempo representava o abandono e a vulnerabilidade de meninos e meninas pernambucanas. Uma pequena amostra de uma sociedade egoísta que torna inocentes em vítimas do descaso (só mesmo um clichê para traduzir o que senti). João Marcelo se despediu das crianças. Despedi-me da anfitriã, assinei o livro de visitas. Saí em transe. Depois, um choque de realidade: Fui com meu filho ao clube para que andasse na bicicleta que ganhara de Papai Noel. A imagem das crianças no berçário, entretanto, não me saía da cabeça. Percebi que sentia uma solidão enorme, bem parecida com aquela a que somos expostos quando nos arrancam do útero. E aí a conclusão: Se temos algo em comum, é essa inevitável solidão. Ela mesma, a solidão, esse “sentimento” que revela o quanto somos e estamos sós. Frutos de um certo abandono, seja ele total ou não…

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