Coisa de Mãe

14 de abril de 2009

por Christianne Alcantara

Cortando o cordão umbilical

Querem saber da última? Liguei para casa depois de dois dias e João Marcelo não queria atender não… Estava assistindo o Sítio do Picapau Amarelo. Foi lacônico: “Oi, mãe. Tchau. Estou vendo o Sítio”. Pode? Estão vendo só? Eu, aqui, com o peito apertado de frio e de saudade e o pirralha nem aí! Claro que fiquei desapontada. Esperava que atendesse a ligação ansioso, ávido por falar comigo. Afinal, sou mãe, e mães são seres egoístas mesmo. A verdade é que, depois que a decepção passou, senti uma pontinha de orgulho. Achei que meu filhote dava uma demonstração de segurança. Ao mesmo tempo, fiquei tranqüila. Era um sinal de que estava bem. Em seguida, questionei minha própria culpa e ansiedade. Culpa de quê mesmo? Ansiedade que vem de onde? Provavelmente de uma cultura que impõe à mulher uma culpa por não conseguir oferecer “toda a atenção” de que o filho necessita e, ao mesmo tempo, cobra que saibamos desempenhar um papel multifacetado em que a maternidade, a profissão e a sexualidade precisam ser equilibradas e bem resolvidas nas nossas vidas. Entretanto, essas cobranças só nos fazem pessoas ansiosas por corresponder às expectativas de outros, no lugar de satisfazermos às nossas próprias. Quem disse que não podemos viver de acordo com nossos medos e, principalmente, segundo as nossas limitações? Melhor: Quem disse que não podemos ser felizes assim, simplesmente, uma de cada vez? Eu e João Marcelo estamos cortando novamente o cordão umbilical… Esse cordão imaginário que se reconstitui com a descoberta do amor mútuo e que se corta novamente quando temos a certeza do amor mútuo já garantido. Acho que minha viagem acaba de começar…

13 de abril de 2009

por Christianne Alcantara

A velha e conhecida culpa…

Pois é… Estou em falta com vocês. Tinha prometido explicar aquela culpa toda que mencionei no último post e olha no que deu… Só agora consigo postar… Na verdade, a origem de todo aquele sentimento de culpa e de toda aquela angústia é a seguinte: Estou viajando pela Europa com Marcelo, e meu filhote ficou. Sei o quanto é importante para o casal que tenhamos um tempo para nós dois, mas é difícil assumir essa escolha e embarcar numa viagem de 22 dias. Claro, está sendo maravilhosa. Entretanto, ainda sinto um pouco de culpa e principalmente de saudade. Muita saudade. Ligamos ontem para casa e ele foi taxativo: “Estou muito triste. Quero que chegue hoje…” Para algumas pessoas, pode parecer drama. Entretanto, esse sentimento de saudade parece sem fim e fica difícil traduzir. Só vivendo mesmo.

6 de abril de 2009

por Christianne Alcantara

O instinto materno

Mãe é uma qualidade de gente muito engraçada. Às vezes, acho que toda mãe é meio louca, meio sem noção. Estávamos numa festa de aniversário no sábado e uma das recreadoras começou a distribuir um brinquedo todo colorido, que fica piscando… A moça não parecia ter muito traquejo com o trabalho que deveria desenvolver e, ao invés de pedir que fizessem uma fila, para entregar o brinquedo às crianças, ficou protegendo a caixa com o corpo, de costas para as crianças e para as mães que esperavam a entrega. Não deu outra. As mães começaram a tirar o brinquedo de dentro da caixa para evitar a ansiedade das crianças, além de resolver sua própria angústia diante da possibilidade de o (a) filho (a) ficar sem o brinquedo… A princípio, fiquei observando e pensando no fato como um bom tema para postar no blog. Mandei João Marcelo pedir o brinquedo à pessoa responsável pela distribuição. Entretanto, a moça, inábil, começou a se desviar das mães e das crianças, como se fosse levar a caixa inteira para casa. As mães não perdoaram. Continuaram seguindo a moça e pegando o brinquedo. Quando vi que João Marcelo não seria atendido, pequenino, em meio àquelas mulheres de salto, avançando em direção à caixa, coloquei meu filhote no braço e resolvi também a questão: Meti a mão e tirei um brinquedo para João Marcelo. Depois, veio o constrangimento. Logo eu, que estava achando a cena horrível… Então, a inevitável conclusão: Somos todas iguais. Agimos de acordo com aquilo que alguns chamam de instinto materno. Bom, já que somos iguais, seríamos normais? Ou a hipótese de que somos todas doidas é a mais fácil de ser comprovada?

5 de abril de 2009

por Christianne Alcantara

Sorver a felicidade

Hoje vou falar em sorvete. Na verdade, vou falar em algo mais que um simples sorvete. Vou falar no sorvete. Aquele que meu pai nos levava para tomar desde a mais tenra idade. Naquela sorveteria maravilhosa que fica a 20m do edifício onde moro atualmente e que existe desde 1957, no Recife. A tradicional Fri-Sabor. Aos domingos, esperávamos ansiosas – eu e minha irmã – pela hora de irmos à sorveteria. Ai, aquele sorvete de creme russo! Minha vida está ligada a essa sorveteria. Primeiro, meu pai me levava. Depois, fui estudar no colégio ao lado dessa mesma sorveteria… Lá, eu sorvi os primeiros momentos felizes da minha adolescência. Depois, mudamos de endereço e fomos para um edifício próximo à tal sorveteria. Mudei de colégio, mas ele ficava apenas do outro lado desse lugar que guarda bons momentos da minha vida de criança, adolescente e adulta. Mudei de endereço, casei, separei… Pasmem: A separação me levou a morar perto novamente da sorveteria. Até então, impassível, incólume à passagem do tempo. Conheci Marcelo, engravidei. Mudamos de endereço. Virei mãe. O edifício para onde nos mudamos fica em outra rua que, seguindo em frente, leva-me àquela mesma sorveteria, o que me faz refletir se, durante boa parte da minha vida, andei em círculos. Agora, estamos nos preparando para nos mudar novamente. A sorveteria, por sua vez, depois de mais de 30 anos (que eu me lembre), está sendo reformada. Está ficando linda, diga-se de passagem, embora eu guarde, com cuidado, a lembrança de quando ela não era tão sofisticada, para não permitir que o tempo traia a minha memória… Pois é, estou indo para um lugar distante da sorveteria, mas agora acho que posso seguir… Já aprendi a sorver a felicidade.

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