Querem saber da última? Liguei para casa depois de dois dias e João Marcelo não queria atender não… Estava assistindo o Sítio do Picapau Amarelo. Foi lacônico: “Oi, mãe. Tchau. Estou vendo o Sítio”. Pode? Estão vendo só? Eu, aqui, com o peito apertado de frio e de saudade e o pirralha nem aí! Claro que fiquei desapontada. Esperava que atendesse a ligação ansioso, ávido por falar comigo. Afinal, sou mãe, e mães são seres egoístas mesmo. A verdade é que, depois que a decepção passou, senti uma pontinha de orgulho. Achei que meu filhote dava uma demonstração de segurança. Ao mesmo tempo, fiquei tranqüila. Era um sinal de que estava bem. Em seguida, questionei minha própria culpa e ansiedade. Culpa de quê mesmo? Ansiedade que vem de onde? Provavelmente de uma cultura que impõe à mulher uma culpa por não conseguir oferecer “toda a atenção” de que o filho necessita e, ao mesmo tempo, cobra que saibamos desempenhar um papel multifacetado em que a maternidade, a profissão e a sexualidade precisam ser equilibradas e bem resolvidas nas nossas vidas. Entretanto, essas cobranças só nos fazem pessoas ansiosas por corresponder às expectativas de outros, no lugar de satisfazermos às nossas próprias. Quem disse que não podemos viver de acordo com nossos medos e, principalmente, segundo as nossas limitações? Melhor: Quem disse que não podemos ser felizes assim, simplesmente, uma de cada vez? Eu e João Marcelo estamos cortando novamente o cordão umbilical… Esse cordão imaginário que se reconstitui com a descoberta do amor mútuo e que se corta novamente quando temos a certeza do amor mútuo já garantido. Acho que minha viagem acaba de começar…
14 de abril de 2009
Hoje vou falar em sorvete. Na verdade, vou falar em algo mais que um simples sorvete. Vou falar no sorvete. Aquele que meu pai nos levava para tomar desde a mais tenra idade. Naquela sorveteria maravilhosa que fica a 20m do edifício onde moro atualmente e que existe desde 1957, no Recife. A tradicional Fri-Sabor. Aos domingos, esperávamos ansiosas – eu e minha irmã – pela hora de irmos à sorveteria. Ai, aquele sorvete de creme russo! Minha vida está ligada a essa sorveteria. Primeiro, meu pai me levava. Depois, fui estudar no colégio ao lado dessa mesma sorveteria… Lá, eu sorvi os primeiros momentos felizes da minha adolescência. Depois, mudamos de endereço e fomos para um edifício próximo à tal sorveteria. Mudei de colégio, mas ele ficava apenas do outro lado desse lugar que guarda bons momentos da minha vida de criança, adolescente e adulta. Mudei de endereço, casei, separei… Pasmem: A separação me levou a morar perto novamente da sorveteria. Até então, impassível, incólume à passagem do tempo. Conheci Marcelo, engravidei. Mudamos de endereço. Virei mãe. O edifício para onde nos mudamos fica em outra rua que, seguindo em frente, leva-me àquela mesma sorveteria, o que me faz refletir se, durante boa parte da minha vida, andei em círculos. Agora, estamos nos preparando para nos mudar novamente. A sorveteria, por sua vez, depois de mais de 30 anos (que eu me lembre), está sendo reformada. Está ficando linda, diga-se de passagem, embora eu guarde, com cuidado, a lembrança de quando ela não era tão sofisticada, para não permitir que o tempo traia a minha memória… Pois é, estou indo para um lugar distante da sorveteria, mas agora acho que posso seguir… Já aprendi a sorver a felicidade.