Coisa de Mãe

Édipo ainda reina

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As tragédias são consideradas, pelos estudiosos, como a maior herança literária que nos foi deixada pelos gregos. Esses mesmos estudiosos falam em Sófocles – o autor da tragédia Édipo-Rei, entre outras – como o mais importante poeta trágico. O enredo é o seguinte: Édipo é filho de Laio e Jocasta, rei e rainha de Tebas. O Oráculo de Delfos avisou Laio que ele seria atingido por uma maldição: seu filho o mataria e se casaria com a própria mãe. Para driblar a maldição, quando o primogênito nasce, Laio ordena que o abandonem num monte, colocando um prego em cada pé para que ele morra. O pastor que o encontra resolve batizá-lo de Edipodos, que significa “o de pés-furados”, ou Édipo. O menino é adotado pelo rei de Corinto e, já adulto, volta a sua terra natal, por obra e graça do destino. No caminho de volta, encontra Laio. Sem saber que era seu pai, Édipo o mata. Chega a Tebas e se casa com Jocasta, a mãe, após responder o desafio da Esfinge:

“Qual é o animal que anda de quatro pela manhã, com dois pés durante o dia, e com três na hora do crepúsculo?”
“O homem – quando criança, engatinha; já adulto, caminha; velho, anda com o auxílio de uma bengala”

Ao descobrirem toda a verdade quanto à origem de Édipo, Jocasta se suicida e ele fura os próprios olhos, sendo depois exilado.
Freud, o pai da Psicanálise, baseou-se nessa tragédia grega para construir o conceito psicanalítico Complexo de Édipo, que representa o desejo incestuoso que o menino na faixa etária de três a seis anos tem pela mãe, desenvolvendo paralelamente uma certa rivalidade com o pai. No caso das meninas, Carl Jung chamou Complexo de Electra, conceito que também baseou-se em uma tragédia grega de Sófocles, esta intitulada Electra, nome da filha de Agamemnon e Clitemnestra. Ela induz o irmão a matar a própria mãe, vingando o pai, que havia sido morto por Clitemnestra. Freud, entretanto, chama de Édipo o complexo feminino ou masculino.
Pois é, aqui em casa, a gente precisou fazer essa reconstituição da mitologia grega para entender o comportamento de João Marcelo. O negócio dele é a mãe, euzinha. O que é natural, é a fase, claro… Mas aí o pai precisava também compreender… Então, fomos conversar sobre o comportamento dele. Eu preciso explicar: Marcelo, o pai, Christianne, a mãe, e João Marcelo, o filho, são os protagonistas desta cena. Estamos todos na varanda, uma família feliz. Marcelo coloca a mão sobre a mão de Christianne. João Marcelo vem e morde a mão de Marcelo. Ou então: João Marcelo acorda de madrugada vai ao quarto dos pais. Christianne o coloca nos braços e diz: “Você vai dormir no seu quarto, filho”. Ele olha para o pai e afirma, frisando bem as sílabas: “Papai, você vai ficar so-zi-nho!” Mas a melhor confirmação do Complexo de Édipo, pelo menos no meu reino, aconteceu ontem. Quem vem acompanhando o blog já sabe que João Marcelo é alérgico à proteína do leite de vaca. Desde sempre, nós o orientamos sobre não ficar perto de quem está bebendo leite de vaca ou comendo algum de seus derivados. Pois é. Presta atenção à cena. Christianne diz: “João Marcelo, vamos comprar o presente do aniversário de sua amiguinha no shopping hoje”. Ele olha e retruca: “Mim e tu, mamãe? Papai não vai não, que ele está sujo de leite de vaca…” A gente não se conteve. Pois é, aqui em casa, Édipo ainda é rei.

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