Tenho estado meio ausente nesses últimos dias. Chegado mais tarde em casa, feito poucos programas com meu filho… Tenho estado cansada também. Meio Fernando Pessoa:
“O que há em mim é sobretudo cansaço –
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.”
E assim, inebriada por esse cansaço, chego à minha casa ansiosa, com dor de cabeça, a coluna doendo pelas tensões modernas e tudo que eu quero é um bom banho e, se possível, uma cama aconchegante… O estresse, agravado pelo trânsito infernal do Recife, chega ao último grau. Sinto-me exausta! E aí, toco a campainha. Ouço aquela vozinha: “Quem é? Já vou, já vou…” O alívio me invade. Sensações de conforto e de tranqüilidade tomam conta de mim. Antevejo aquele sorriso aberto, desprovido das angústias que os adultos acumulam pela incompetência de não saber viver apenas o presente, e já começo a sorrir também. Esqueço tudo: as decepções com os outros, a monotonia da rotina, o trânsito insuportável, o corre-corre, as pressões… Nesse preciso momento, percebo a inversão de valores a que nos submetemos diariamente: priorizamos as buscas materiais, corremos atrás não sabemos exatamente de quê, mas corremos, ocupamos a maior parte do nosso tempo com questões que não mereceriam um minuto do nosso envolvimento pessoal. Mas eu estava no anticlímax. Quando eu ainda estou imaginando aquele sorriso iluminado, inocente, alheio a todas essas inquietações… Eu ainda estou do lado de fora do apartamento, ouvindo de dentro a “anunciação” da minha paz de espírito. Já me sinto mais leve, o cansaço se esvai aos poucos e resta só aquela sensação de plenitude que uma recepção calorosa está prestes a me oferecer. Eu me escondo. A porta se abre e aquele projeto de gente, com cerca de 94cm de altura, sai perguntando: “Quem é? Quem é?” Eu fico de cócoras, ele me vê e grita: “Mamãe!” O grito exprime um misto de alegria por ter descoberto quem se escondia e, ao mesmo tempo, por ter me encontrado… Interpreto, na minha mania de interpretar tudo. Ele me reencontra com o olhar e pergunta: “Tu vai brincar com mim?” É quando eu descubro que não há mais cansaço. Todas as minhas dores aliviadas pela insustentável leveza daquele ser que me olha, ansioso pela resposta. Respondo: “Vou, filho”. Alívio. Lembro-me apenas de agradecer mentalmente por ter sido abençoada com mais um expediente.