Coisa de Mãe

A novidade é o amor

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Li uma entrevista na Revista Superinteressante deste mês do filósofo Luc Ferry, aquele ministro da Educação da França, entre 2002 e 2004, que conseguiu junto ao parlamento francês proibir que alunos (as) usassem símbolos religiosos nas escolas. A lei, que ficou conhecida como “lei do véu”, causou polêmica porque atingiu em cheio os muçulmanos que obrigam as filhas a usarem o chamado “véu islâmico”. Bom, feitas as devidas apresentações, deve-se dizer ainda que Luc Ferry é integrante do governo conservador do atual presidente francês Nicolas Sarkozy e lançou recentemente o livro “Famílias, amo vocês”. O título da entrevista do autor concedida à Superinteressante é “Nunca amamos tanto os nossos filhos” e, claro, uma entrevista como essa me interessa, apesar do currículo do atípico filósofo francês. Pois é, as respostas dele sobre o assunto foram superinteressantes, para minha surpresa. Uma comparação lúcida entre as Idades Média e Moderna no que diz respeito ao surgimento do amor. E isso se estende ao amor pelos filhos, pela família. Luc Ferry – numa clara defesa das instituições burguesas, diga-se de passagem – lembra que “antes do capitalismo, as pessoas se casavam à força e nunca por amor”. Ele menciona ainda que o casamento por amor surge com a independência feminina. E, então, “(…) desse casamento vem o amor pelos filhos e depois a sacralização das pessoas. Foi assim que o amor familiar virou um grande traço que nos define hoje em dia”. Ele sentencia ainda: “O amor é uma das poucas coisas absolutas, indiscutíveis (…)”. Lendo a entrevista, lembrei-me de Jurandir Freire imediatamente. Brasileiro, nada conservador, psicanalista. No livro “Ordem médica e norma familiar”, ele fala algo semelhante. Freire confirma aquilo que sabemos, historicamente: “O amor não era um pressuposto necessário à ligação conjugal”. Já “a mulher (…), submissa ao homem, não imaginava a importância que tinha na proteção às crianças”. Uma nova ordem doméstica surge, e a mulher passa a ser a responsável pela educação dos filhos (as). Passa a ter também um papel mais bem definido e autônomo. O livro é muito mais que isso. Faz uma análise de como pedagogos e higienistas regularam afetos e condutas de membros da família, oferecendo-lhe a configuração atual. Para nossa discussão, muito mais modesta, quero lembrar simplesmente: Nas duas visões, o amor é uma grande novidade. O amor conjugal e, conseqüentemente, o amor pelos filhos e pela família. Sempre imaginamos ser inconcebível não amar… Principalmente os (as) filhos (as)… Ledo engano. Houve um tempo em que sequer amávamos a nós mesmos (as)…

Para quem tiver interesse em ler os livros, deixo as dicas:

Famílias, amo vocês. Autor: Luc Ferry, Editora Objetiva, 2008.

Ordem médica e norma familiar. Autor: Jurandir Freire Costa, Edições Graal, 2004.

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