Coisa de Mãe

O casamento

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Igreja de São Benedito, na Praia de Carneiros, Pernambuco

Igreja de São Benedito, na Praia de Carneiros, Pernambuco

Não conheci dona Arlene, mãe do meu marido, avó do meu filho. Dela, só tenho uma foto que fica na mesinha de cabeceira, do lado que Marcelo dorme. Uma foto em preto e branco de uma senhora ainda jovem e muito, muito bonita. Na foto, ela não está nem sorridente, nem triste. Enigmática, na sua beleza delicada. O cabelo, impecável. Um certo ar de fidalguia e tranqüilidade. Como já disse, não a conheci, mas aprendi a reconhecê-la no meu filho. Logo que João Marcelo nasceu, o filho de dona Arlene que é meu marido identificou um calinho na orelha do bebê. Emocionou-se, dizendo que era igual ao da mãe. Depois, vieram outras semelhanças: um dedo mindinho ligeiramente torto, um sono em que não se fecham os olhos completamente – o que, futuramente, já sei, provocará um ressecamento incômodo nos olhos do meu filho… Com o tempo, é provável que outras heranças apareçam e, assim, aos poucos, irei reconhecendo essa senhora que me olha, sempre intensa e mansamente, de uma imagem emoldurada. Esta semana, entretanto, aprendi um pouco mais sobre dona Arlene. Meu cunhado, o filho mais novo de dona Arlene, vai se casar com tia Camille em outubro. Os preparativos para um casamento são inúmeros. A escolha do local, o buffet, o celebrante, o vestido da noiva, a roupa do noivo, a decoração, o bolo. O tio de João Marcelo tinha uma preocupação a mais: com quem entraria na capela, em direção ao altar? Meu marido não teve esse problema. Marcelo, assim como eu, é casado pela segunda vez. Entrou com a mãe na Igreja de Santa Teresa. Lembra-se de que ela estava linda. Diz que, na fita do seu casamento, pode encontrar imagens emocionantes de dona Arlene. Nunca assisti. Prefiro a imagem que tenho dela no meu quarto. Ou melhor, prefiro mesmo a imagem que venho compondo de dona Arlene ao longo dos últimos cinco anos… Não é concreta e, talvez por isso mesmo, tenha muito mais poesia e um certo encantamento. Mas, meu cunhado estava nesse impasse que não tinha nada de abstrato. Ele precisava de alguém que representasse a mãe, que o acompanhasse em direção ao altar. Em Ciência Política, aprendi que representar é tornar presente, o ausente. A pessoa que estivesse ao lado dele não estaria exatamente substituindo dona Arlene, mas a estaria representando… Representar mãe não é uma tarefa que deve ser executada por qualquer uma… ou um. Foi a conclusão a que meu cunhado, sabiamente, chegou, quando compreendeu que não havia nenhuma mulher à altura de dona Arlene para acompanhá-lo até o altar. Pra quê regras de cerimonial quando o ritual de passagem para o casamento precisa ser – não necessariamente pomposo ou glamoroso – apenas autêntico? Foi o que, imagino, passou pela cabeça dele. Libertado das convenções sociais, pôde, então, fazer sua escolha. E eu, que gosto de criar imagens, já posso ver o tio de João Marcelo entrar com o pai por uma igreja simples e exuberante na beira do mar de Carneiros.

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