Coisa de Mãe

23 de abril de 2019

por Christianne Alcantara

A menina que amava livros

Hoje é, até zero hora, o Dia Mundial do Livro. Mas minha homenagem vai para meu pai. Ele me ensinou a amar livros. Chegava do trabalho cansado e lia comigo. Revezávamos na leitura. Ele lia uma página e eu lia outra. A imagem abaixo é do primeiro livro que me recordo de termos lido juntos. Guardo com um zelo enorme, embora esteja desgastado pelo tempo. Lembro-me de tê-lo comprado numa livraria que existia lá no Jayme da Fonte. Eu devia ter uns cinco anos, mas me recordo claramente do dia em que o compramos. Lembro-me também da Livraria Síntese que ficava no térreo do prédio onde morávamos, na Rua do Riachuelo. Lembro-me ainda da alegria de semanalmente entrar na Livro 7, bem perto do meu edifício. Lembro-me de uma infância tranquila, de muito afeto do meu pai e de estar sempre cercada por livros. E em tempos de redes sociais, em que ler um livro é quase um ato revolucionário, devo dizer que a leitura sempre foi para mim uma prática libertária. Vem me libertando de preconceitos e me salvando da estupidez que nos ronda a todos… Obrigada, pai. De tudo que aprendi com vc, o gosto pela leitura foi um dos maiores aprendizados. Vc me salvou muitas vezes, mas me ensinou a gostar de ler para que eu mesma possa me salvar quando estiver em perigo. Te amo sempre.
P.S. Gostaria de ser capaz de estimular meus filhos tanto quanto vc fez comigo. Mas confesso que a concorrência hoje em dia está desleal. Não sei se venço essa batalha.

#diamundialdolivro

3 de janeiro de 2019

por Christianne Alcantara

Que nada nos defina

Minha filha de nove anos ouviu a polêmica sobre cor e gênero e perguntou:
– Mãe, e agora? Minha cor preferida é azul…
Lembro-me de que decorei o quarto de bebê dela com uma árvore que tinha de verde a rosa, passando por marrom e bege. O berço móvel, eu quis rosa. Ela cresceu e, aos quatro anos, pediu para pintar a parede de azul, cor que permaneceu até pouco tempo e vai voltar a ser em breve.
Respondi, depois de respirar fundo:
– Filha, vc vai continuar usando azul, rosa, verde, branco, a cor que vc quiser…
Ela, aliviada:
– Ah, sim… Oxe!
Com o “oxe”, ela traduziu a polêmica.
#MeninaseMeninosVestemOQueQuiserem

21 de dezembro de 2017

por Christianne Alcantara

Felicidade é nascimento de filho (a)

Faz 12 anos hoje. Eu me lembro da frustração, a princípio, por não ter entrado em trabalho de parto depois de quase 42 semanas e de ter escolhido fazer cesárea, com medo de “induzir”. Depois me lembro do choro e da alegria de conseguir que ele se acalmasse com a minha voz. Eu me lembro do rostinho inchado, roxinho, das bochechas e da felicidade de ver João Marcelo pela primeira vez (se felicidade tem um nome, pra mim, chama-se “nascimento de filho (a)”. A outra vez que me senti tão plena foi no nascimento de Valentina, cerca de quatro anos depois). Ai, eu me lembro com dor da dificuldade que ele teve de pegar o bico do peito. Mas por essa outra frustração eu não passaria. Amamentaria, sim. E amamentei. Eram momentos tão intensos que não consigo nem descrever. Só sei que ele cresce a cada dia. É uma das crianças mais doces que conheço, mais sensíveis, mais carinhosas, mais solidárias e empáticas. Sei que vocês vão dizer que toda mãe acha isso dos seus filhos. Coisa de Mãe, vão dizer. Pode ser, mas, se ele continuar crescendo assim, um dia, quem sabe, vocês possam dizer: “Desta vez, a mãe não exagerou”. Feliz aniversário, filho! Te amo sem medida.

18 de outubro de 2016

por Christianne Alcantara

Escola de princesas

escola-de-princesasUma notícia de que estaria sendo instalada em São Paulo uma escola de princesas ocupou boa parte das redes sociais por esses dias. E a polêmica, como não poderia deixar de ser, instalou-se lá em casa. João Marcelo e Valentina ouviram quando eu e Marcelo comentávamos a respeito. Nada disseram, nada perguntaram. Dia seguinte, João Marcelo, do nada, questiona:
– O que é essa história de escola de princesas, mãe?
Antes que eu respondesse, Valentina atropela:
– Ah, uma coisa que você vai demorar muito a entender, meu querido irmão…
Ele insiste:
– Mas o que é?
Valentina não hesita:
– Uma coisa que quer fazer de mim o que eu não sou. Entendeu?
Silêncio absoluto.
Acho que ele entendeu mais facilmente do que ela poderia imaginar…

28 de setembro de 2016

por Christianne Alcantara

Brilho de mãe

Não há nada mais intenso do que o brilho do olhar de uma mãe. Pensei sobre isso hoje, quando uma amiga me revelou que está grávida. Ninguém o diria pela barriga… Poucos meses de gestação e a barriga quase não aparece… Mas, se fôssemos mais atentos ao outro, teríamos visto a alegria e o brilho no olhar transbordando.
A maternidade nos transforma. Não, não é um comentário romântico. E eu não tenho nenhum problema em ser romântica. Ela nos modifica mesmo. Claro, há quem deseje ser mãe e fique feliz com a notícia. Há quem não deseje e fique triste. O fato é que, depois de engravidarmos, não somos as mesmas.
Eu perdi meu primeiro filho. Depois dele, não fui mais a mesma. Mesmo minha maternidade não se concretizando naquele momento. Sentir que podemos gerar outra vida dá um sentimento de infinitude. Pode ser um pouco de onipotência… Que seja. A verdade é que a gente se depara com a perpetuação da espécie. Da nossa espécie. E lá vem a prepotência…
Entretanto, existe um outro lado. Para mim, pelo menos. E, ao contrário do que afirmou Machado de Assis (“não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”), em Memórias Póstumas de Brás Cubas, fico pensando que deixo um legado maior que o da “miséria” para as minhas criaturas.
Ou melhor: as nossas filhas e filhos não são, eles mesmos, o nosso legado para esta sociedade? Que sejam um legado de amor.
gestacao

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